Ninguém gosta de exames finais. E menos ainda quando se trata do momento em que estamos encerrando nossos dias neste mundo. A boa notícia é que nos deram as perguntas com antecedência. Deus não gosta de nos surpreender. Esta passagem talmúdica estabelece os parâmetros pelos quais nossas vidas serão julgadas na entrada para a eternidade. «Raba disse: Após deixar este mundo, quando uma pessoa é submetida a um julgamento pela vida que viveu nele, perguntam-lhe, seguindo a ordem deste versículo:
Você agiu com honestidade em seus negócios?
Você reservou tempo regularmente para estudar a Torá?
Você se envolveu na criação de filhos?
Você trabalhou para melhorar o mundo?» Talmud, Shabbat 31a.
A primeira coisa que nos perguntam destaca o fato de que as questões não eram: “Você acredita em Deus?” ou “Você jejuou no Yom Kipur?”. A pergunta era: “Você foi honesto?”. Muitos associam o fato de ser um bom judeu apenas à observância das *mitzvot* (mandamentos), especialmente aquelas que são bastante visíveis — como, por exemplo, guardar o Shabat, seguir as leis de *kashrut* (alimentação judaica) ou colocar os *tefilin* pela manhã. Para muitos, essas *mitzvot* são o critério para definir se alguém é ou não um bom judeu. No entanto, a honestidade nos negócios é algo que não pode ser visto a olho nu. O ponto central desta passagem do Talmud é que ela coloca a ética no âmago do judaísmo. A principal preocupação de Deus não é se a pessoa acredita n’Ele, nem se ela toma um cuidado escrupuloso para não consumir *chametz* (alimentos fermentados) durante o Pessach; Ele se preocupa, acima de tudo, se a pessoa foi um *mensch* — um ser humano íntegro e honrado.
A segunda questão trata do estudo da Torá, especificamente dos mandamentos (*mitzvot*) que definem como uma pessoa deve se comportar em relação ao próximo — preceitos que constituem o alicerce da ética judaica. É por isso que o estudo da Torá é tão fundamental: ela nos ensina a ser éticos e a agir como membros de um grupo social, em particular do povo judeu. Contudo, estudar a Torá vai além de memorizar as *mitzvot*; trata-se, em última análise, de compreender a natureza humana — e, sobretudo, de compreender a si mesmo. Não estudar a Torá significa deixar de desenvolver o próprio ser, estagnando o crescimento intelectual e espiritual; é, em certo sentido, desperdiçar a própria vida.
A terceira questão diz respeito aos nossos filhos. I. L. Peretz, o grande escritor judeu, afirmou: “As crianças constituem a eternidade do ser humano”. Criar filhos é a maneira de transmitir nossos valores e nossas esperanças por um mundo melhor às próximas gerações.
A quarta questão refere-se ao esforço para redimir o nosso mundo. Ela parte da visão de que o povo judeu é parte integrante de toda a humanidade e de que buscar o *Tikun Olam* — a reparação do mundo —, na medida do potencial de cada indivíduo, é uma obrigação de todos. O rabino Tarfon diz, em *Pirkei Avot*: “Não te cabe completar a obra, mas também não és livre para dela desistir”. Em suma, suas respostas às quatro perguntas revelam suas atitudes em relação ao próximo, a si mesmo, à sua família e ao mundo. Recebemos as perguntas com antecedência, para que possamos respondê-las da melhor maneira possível antes de realizar o exame.
Por Marcos Gojman.
Bibliografia: Joseph Telushkin, «Jewish Wisdom»; Benjamin Blech, «Understanding Judaism