7.1.1. Torá Shebeal Pe: A sabedoria que evolui de mestre para aluno.

Quando a Bíblia — o nosso Tanach — foi concluída, o judaísmo entrou em uma nova era. Os judeus já não precisavam depender dos profetas para conhecer a palavra de Deus; agora, eles dispunham da Torá escrita, cujo significado era interpretado por rabinos e estudiosos. Essas interpretações ficaram conhecidas como *Torá Shebeal Pe*, ou Torá Oral. O judaísmo ortodoxo sustenta que essa Torá Oral foi outorgada por Deus a Moisés simultaneamente à entrega da Torá escrita. As vertentes não ortodoxas do judaísmo possuem uma visão distinta, compreendendo a Torá Oral como um processo contínuo de interpretação, desenvolvido ao longo de muitas gerações de sábios. De modo geral, a necessidade de conferir legitimidade a essas novas interpretações — independentemente de sua origem ser divina ou não — reflete-se no primeiro versículo de *Pirkei Avot* (1:1), que afirma: “Moisés recebeu a Torá no Sinai, transmitiu-a a Yehoshua (Josué), Yehoshua aos anciãos, os anciãos aos profetas, e os profetas aos membros da Grande Assembleia”.

A Torá Oral compreende as leis, os estatutos e as interpretações jurídicas que não foram registrados nos cinco livros de Moisés — a Torá escrita. Segundo a tradição, a Torá Oral foi transmitida oralmente por uma cadeia ininterrupta de gerações de sábios, até que seu conteúdo fosse finalmente colocado por escrito, após a destruição do Segundo Templo, no ano 70 d.C., momento em que o judaísmo enfrentava uma ameaça existencial. Por volta do ano 200 d.C., o rabino Yehuda Hanasi decidiu compilar todas essas interpretações rabínicas no que hoje conhecemos como *Mishná*.

Essa compilação inicial das interpretações rabínicas não encerrou os debates entre os estudiosos. Nossos sábios continuaram a indagar, por exemplo: “O que significa guardar o Shabat? O que é permitido e o que é proibido fazer?”. Séculos após a edição da *Mishná*, novas interpretações foram reunidas no que chamamos de *Guemará*. A *Mishná* e a *Guemará* compõem, juntas, o *Talmud* — a Torá Oral.

A Torá Oral, transmitida de mestre para aluno, constitui a interpretação que nossos sábios conferem aos mandamentos. Deus permitiu que Sua vontade permeasse o intelecto daqueles que estudam as Suas *mitzvot*. E esses diálogos, essas conversas, não apenas registraram os mandamentos divinos, mas também a resposta contínua dos seres humanos. Os rabinos gostavam de debater entre si e especializaram-se nos mínimos detalhes. Portanto, o trabalho de interpretação contínua ainda não terminou. Não é de se admirar que as pessoas admirem esses estudiosos até mais do que os próprios profetas bíblicos. Enquanto os profetas repetiam o que haviam ouvido, os estudiosos demonstravam a beleza de combinar a sabedoria humana com as palavras de Deus — uma sabedoria que evolui constantemente à medida que é transmitida de mestre para aluno.

Por Marcos Gojman.

Bibliografia: «Understanding Judaism», do rabino Benjamin Blech, e outras fontes.

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