O rabino Yosef Kanefsky afirma: “A verdadeira essência da Redenção — a saída dos hebreus do Egito — não é a passagem da escravidão para a liberdade, mas sim a aquisição e a promulgação de um conjunto de leis que dignifica, santifica e eleva nossos pensamentos e ações, tanto individual quanto nacionalmente. A Redenção, em sua raiz mais profunda, consiste em assumir — e, em última análise, criar — uma sociedade fundamentada em um conjunto de leis justas, que incorpora o caminho de Deus.”
Kanefsky prossegue: “Pois, ao sermos redimidos, não recebemos apenas mandamentos simples — a *Halachá* ritualística. Por meio da Torá, Moisés também nos transmitiu a lei sobre como e quando incluir o estrangeiro que deseja celebrar a Páscoa (*Pêssach*) conosco, estabelecendo uma única lei e uma única Torá, tanto para o nativo quanto para o estrangeiro.”
A Torá é um manual de conduta; não é um catecismo de crenças. Foi no Sinai que Moisés recebeu a ordem divina de ensinar ao povo os 613 mandamentos. O mesmo Deus que libertou os hebreus da escravidão no Egito não apenas lhes ensinou o valor da liberdade, mas também exigiu que se submetessem à disciplina dos mandamentos divinos.
Isso soa como uma contradição? De forma alguma. Deus queria que os hebreus compreendessem o que Will Durant, o grande historiador, expressou ao referir-se à lição mais importante que a história nos ensina: “O ser humano tornou-se verdadeiramente livre quando reconheceu que precisava submeter-se à lei.” Há quem diga que o judaísmo, mais do que um substantivo, é, na verdade, um verbo. Suas leis acompanham o judeu desde o momento em que ele abre os olhos pela manhã até a hora de se deitar à noite; orientam como conduzir os negócios, como tratar os pais, o cônjuge e os filhos, e como celebrar os eventos que marcam a vida. É um manual de como viver.
Por diversos motivos, muitos dos 613 mandamentos não se aplicam nos dias de hoje. O principal deles — embora não o único — que nos impede de cumprir grande parte dos mandamentos é o fato de não termos mais o Templo de Jerusalém. O rabino Israel Meir Kagan, conhecido como Chafetz Chaim (1838–1933), escreveu o *Sefer HaMitzvot HaKatzar*, um compêndio das *mitzvot* (mandamentos) que permanecem válidas até hoje: 271 que se aplicam a todo o mundo judaico e 26 que se aplicam apenas àqueles que vivem em Israel.
Nossos sábios dedicaram muito tempo e esforço ao estudo, comentário, compreensão, ensino e aplicação desses preceitos. Muitos deles representam valores universais. Mais do que a libertação do Egito, as *mitzvot* — os mandamentos — constituíram o verdadeiro presente de Deus.
Por Marcos Gojman.
Bibliografia: Benjamin Blech, *Understanding Judaism*; Chafetz Chaim, *The Concise Book of Mitzvoth*; e artigo de Yosef Kanefsky em *Morethodox*.